segunda-feira, outubro 23, 2006

A porta


Sou daquele que me transporta.
Sou daquele que me suporta.
Estou no coração que comporta
O desejo que aporta.
Para ele nada mais importa
Mesmo quando, deste mundo, a espera o deporta.
Hoje, o átomo do amor se teletransporta
Desta minha vontade que se exporta.
Do meu coração abri a porta!

domingo, outubro 22, 2006

Quando a noite cai


Quando a noite cai,
Lânguida de melancolia,
Revivo a doce fantasia
Daquele amor que já lá vai.

Envolvida na tua magia,
Sussurro-te segredos insuspeitos,
Conto-te meus sonhos desfeitos
Ao som da lunar melodia.

Amante e doce confidente,
Testemunhas a minha solidão
Vazia do calor da paixão,
Saudosa do amor ardente.

És a minha companhia fiel,
Cúmplice dos gemidos mudos,
Dos meus discursos absurdos
Contra o mundo que me é cruel.

sábado, outubro 21, 2006

O amor metafórico


Não te quero sabendo que te quero
E, por querer-te, desejo nunca te ter.
Como funâmbula na corda da vida espero
Não cair na tentação que me está a absorver.
Nem sei porque é a ti que quero.
Talvez seja poesia o que está a acontecer,
Um amor metafórico
Que quer ser eufórico,
Um sentimento em que me morro
Porque não quero saber que te quero meu amor.

sexta-feira, outubro 20, 2006

O desenho


Amor,
Desenha-me do Sol o calor!
Amor,
Desenha-me da flor o odor!
Amor,
Desenha-me da carícia o candor!
Amor,
Desenha-me do beijo o sabor!
Amor,
Desenha-me da paixão o ardor!
Amor,
Desenha-me do sonho o esplendor!
Amor,
Desenha-me da vida o alvor!

O meu amor pegou numa folha de papel virgem e, com delicadeza, desflorou-a com traços
quentes,
perfumados,
ternos,
doces,
apaixonados,
brilhantes,
iluminados.

O meu amor desenhou...
um poema!

quinta-feira, outubro 19, 2006

A tua mão


Amor, perdoa os meus momentos de loucura!
Serena-me nos teus braços de brandura!
Preciso do teu colo para me sentir segura!
Preciso do teu calor para afastar a amargura!

Às vezes, deste mundo cruel desejo fugir.
Queria ter forças suficientes para conseguir
Dispersar esta núvem negra e descobrir
De novo a luz que um dia fizeste eclodir.

As memórias e as culpas me atormentam.
A tristeza e o cansaço em mim pesam.
No chão caio. A esperança e o sonho não levantam
E, derrotada, entrego-me às lágrimas que não secam.

Amor, por isso mais uma vez te peço perdão.
Só tu tens a força para me chamares à razão.
Deixa abrigar-me no calor da tua paixão!
Guia-me de novo para a vida com a tua mão!

quarta-feira, outubro 18, 2006

O beijo


Quero dar-te um beijo
Sem pejo.
Um beijo solto,
Maroto.
Um beijo molhado,
Apaixonado.

Quero dar-te um beijo
Sobejo.
Quero e dou.
Enfeitiçou.
Teus lábios despudorou,
Queimou.

Dei-te o beijo
Sobejo, sem pejo.
Tua boca adorou.
Desejou
Outro beijo,
Outro beijo,
Outro beijo
Que eu dou.

Minha boca decorou
Tua boca.
Desenhou
E quis,
Sem rodeios subtis,
Conhecer os ardis
Da tua língua
Sem míngua.

Língua na língua,
Lábios nos lábios,
O beijo aprofundou,
Saboreou,
Deliciou,
Excitou,
Extasiou,
Apaixonou.

O beijo beijou-nos,
Aprisionou-nos.
O beijo partilhou,
Emocionou.
O beijo
Que te dei.
O beijo
Que amei.

terça-feira, outubro 17, 2006

O segredo


Abraça-me como se não houvesse amanhã!
Abre-me como se eu fosse uma romã!
Devagar verás que escondo a doçura.
Prova-me e saberás o que é a ternura.

Despertarei em ti todos os sentidos.
Darei vida a todos os teus sonhos perdidos.
Não tenhas medo, para ti vou me despir.
Mais do que um corpo, verás o meu coração a sorrir.

E assim, um ao outro em entrega,
Num apetite insaciável que o desejo alega,
Descobriremos lentamente o prazer extasiante
Do encontro da tua fome e do meu segredo deleitante.

segunda-feira, outubro 16, 2006

A viagem de Ofélia

Ofélia, Salvador Dali


No clarear da aurora,
Nas brumas de outrora,
Ofélia afogou-se,
Ao rio entregou-se.

Tranquilos os dois,
Sem pensar no depois,
Deslizam sobre a vida
Numa entrega incontida.

Os teus cabelos espalhados,
Longos, loiros, deitados
Debaixo dos pinheiros do monte
Corriam como uma límpida fonte.

Como uma folha morta,
Tão serena e absorta,
O teu rosto tão pálido
Já não estava cálido.

E o teu branco vestido,
Molhado e indefinido,
Do teu corpo revelava a forma
Na transparente plataforma.

Ofélia assim partiste
E eu, só, fiquei triste.
A corrente te levou.
A água te purificou.

domingo, outubro 15, 2006

O luto


Como as folhas que se deixam cair,
A minha vida é um Outono de pranto.
Faço o luto de querer tanto
Que meus ecos consigas ouvir.

Nesta solidão não mais quero viver.
As minha emoções foram humilhadas.
E de nossas vidas partilhadas
Ficaram só lembranças do meu sofrer.

Por isso ao vento me vou entregar.
Ele que me leve para onde quiser.
Aceitarei serenamente o que me propuser
Para desses grilhões de mágoa me libertar.

sábado, outubro 14, 2006

O esboço


Grafismos de ideias
Esboçados no papel,
Como sangue nas veias,
Como carícia na pele,
Correm e deixam marcas
Em mim e em ti,
Desejam ser monarcas
E reinar por aí,
Até onde chegarem
Aos olhos do mundo,
Até onde tocarem
Nas emoções bem fundo,
E se mostrarem a realidade
Acreditemos com devoção,
E se não forem verdade
Viajemos na imaginação!

sexta-feira, outubro 13, 2006

O prazer


Tela
Tão bela
A tua pela
Tatuada na minha pele

Toca
Toca-me
Com tua boca
Até eu ficar louca

Paixão
Quente tensão
Passa tua mão
Acaricia a minha tentação

Prazer
Ter-te
No meu ser
Todo nu a estremecer

Orgasmo
Sem pasmo
Nem nenhum pleonasmo
Mas num intenso espasmo

quinta-feira, outubro 12, 2006

A noite



A noite, de mãos delicadas,
Esculpe a abóboda celestial,
Cria o trono do Universo divinal.

A noite, de mãos adornadas,
Enfeita o céu com diamantes,
Ilumina a Lua para os amantes.

A noite, de mãos de fadas,
Concede desejos de paixão,
Desperta a magia do coração.

quarta-feira, outubro 11, 2006

A tempestade


Perdidos no meio do negro mar,
Os marinheiros, com valentia, estavam a lutar
Contra a tempestade colossal que os queria afundar.

O navio vulnerável balançava nas ondas sem parar
E as vagas agigantavam-se para o inundar.

Todos estremeciam com o pavor de virar,
Pois o casco e o mastro estavam a estalar.

O vento, furioso, as velas violentadas tentava rasgar.

Instável, o leme já não se deixava governar.

Indo ao sabor do revoltoso mar,
Assim estavam aqueles homens a navegar
Vendo dolorasamente suas vidas a naufragar.

terça-feira, outubro 10, 2006

A inspiração


Como um alvo vértice de pureza
Que brota da fonte do coração
Mais límpido que qualquer devoção,
Bebo de ti toda a tua beleza.

E nessa bela e sublime grandeza,
Entrego-me à purificação
Das doces lágrimas da emoção
Que do meu ser se soltam em leveza.

Ó inspiração! A ti devo a vida!
Tua linda luz me fez renascer
Das cinzas onde eu estava escondida.

Tu! Tu és esse magnífico ser
Que me ajuda a sentir protegida
E o amor-próprio engrandecer.

segunda-feira, outubro 09, 2006

A chuva


A chuva cai
No meu coração.
Melancólico se esvai
Libertando a comoção.

Em tons de monotonia,
A minha alma pinto,
E a triste sinfonia
Retrata o que sinto.

Também chove lá fora
Pingas indolentes
E a natureza chora
Lágrimas ingentes.

A terra bebe o pranto
E absorve a dor.
Eu, involta no manto,
Entrego-me ao torpor.

domingo, outubro 08, 2006

A volúpia


Diluviano é o prazer que corre e escorre impetuosamente nos canais carnais do meu corpo suado, molhado, inundado e luxuriante de volúpia, contorcendo-se lascivamente na cadência da respiração ofegante e ofuscante que inebria em torrente o meu desejo sobejo.
No fim, arrastada e arrebatada pelas correntes tempestuosamente intensas da minha arrojada entrega, fico despojada de mim própria e repouso inerte e pacífica mas purificada, unificada e libertada.
Depois, virá a calmaria serena e amena que me disfarçará com as suas vestes de quotidiano social, formal, banal.
Tudo escondido.
Tudo contido.
Tudo seco.

sábado, outubro 07, 2006

O abrigo


Gostaria que minha voz ouvisses,
Mesmo em exílio do teu coração,
Que te libertasses dessa prisão
E que do peso das mágoas fugisses.

Queria que as penas me confessasses,
Que o silêncio não fosse solidão.
Caminharmos na mesma direcção,
Com amor sincero te aproximasses.

Ser para ti o refúgio leal.
Ser a tua alma gêmea e a presença
Que ouve e não fica na indiferença.

Quero ser p'ra ti asilo ideal,
Abrigo que te acolhe a diferença,
A plenitude em sua omnipresença.

sexta-feira, outubro 06, 2006

O adeus


Adeus! Meu lindo e terno amor, adeus! Parti.
Foge de mim! Fui indigna do teu amor,
E agora o meu coração chora com a dor
Cobarde de nunca se ter entregue a ti.

A minha alma é como a vil erva daninha
Que se instala e destrói tudo em seu redor.
Liberta as tuas asas! Voa como condor,
Meu amor! Entrega-te a quem te acarinha!

O crime mais hediondo eu cometi.
Sem dó, sem arrependimento te menti
Em cada amargo momento em que te beijei.

Vai, amor! Para longe, para sempre, vai!
Limpa a lágrima de saudade que cai!
Infame, eu te enganei. Nunca te amei.

quinta-feira, outubro 05, 2006

O poeta


Em tudo existe poesia.

No coração que palpita por amor;
No coração que sangra com dor.
Na lágrima que se solta por emoção;
Na lágrima que rola com desolação.
No beijo que unifica a paixão;
No beijo que anuncia a separação.
Na mão que afaga o cabelo;
Na mão que desespera em apelo.
No sorriso que revela a alegria;
No sorriso que oculta a melancolia.
Na palavra que ilumina o teu mundo;
Na palavra que derruba para o fundo.

Em tudo existe poesia,
E tu, poeta, não o podes negar.
É essa a tua afrodisia.
Deixa a tua alma rebentar!

quarta-feira, outubro 04, 2006

A ruptura


Convidaste-me para tomar café
E eu fui ter contigo plena de fé
De que iríamos resolver os nossos problemas,
Conversar acerca dos teoremas
Mas, num tom grave e frio,
Atiraste-me sem pausas o teu discurso sombrio
E eu, incauta, fiquei atordoada
Como se tivesse sido abalroada
Pelo teu abrupto "Não te amo mais"
E pelo cruel "Não me procures jamais".
A nossa história acabou assim.
Para os meus sonhos e planos foi o fim.
Sei que nunca poderemos ser amigos.
Num instante tornámo-nos inimigos.
Partiste lançando-me um duro adeus
E eu fiquei me perguntando se há Deus.
Fiquei mais um pouco sentada.
Na verdade, estava totalmente aterrada.
No meu pensamento atropelavam-se recordações.
Dos nossos momentos bons fiz compilações.
Levantei-me e comecei a deambular pela ruas
Sentindo apenas cheiros e sabores de amarguras.
Ao chegar a casa, atirei-me para cima da cama
Mas mais parecia que estava deitada na lama.
Fechei os olhos não querendo nunca mais acordar.
É isso que se sente quando já não se pode conjugar o verbo amar.

terça-feira, outubro 03, 2006

O roubo da lua


Pedi-te a lua.
E tu por amor disseste que a ias buscar.
Partiste num final de tarde pelo caminho dos sonhos em direcção ao ocaso do horizonte. Quando lá chegaste, já tinha caído o véu da noite e a lua redonda estava a acordar.
Com um silencioso cuidado, aproximaste-te devagar para ela de nada se aperceber e, vendo que ela estava distraída a conversar com as estrelas luminosas, a agarraste e embrulhaste no teu saco de magia para a esconder.
Mas as estrelas, agora furiosas por verem a sua rainha a ser roubada, uniram-se em astro cadente e, com a força de um trovão, despedaçaram o teu coração e transformaram-te em cinza prateada. De seguida, a lua libertaram e esta retomou majestosamente o seu lugar para de novo o céu sombrio iluminar.
Foi o luar que me contou o que tinha acontecido.
Por tanto sonhar, percebi que te tinha perdido.
Mas, apesar de não mais te poder tocar, vejo-te nos reflexos de prata que o luar pinta no mar. E esse brilho ninguém jamais mo poderá tirar.

domingo, outubro 01, 2006

A pintura


Eu gostaria de ser pintora!
Pegar numa tela nua
E acariciá-la com traços cuidadosos
Em movimentos harmoniosos.
Suavemente e com mestria,
Misturar cores em matizes subtis
Para abrir a janela da imaginação
E a porta do coração.
A pintura é um poema!
Olhar para ela
É sem palavras ler emoções,
É despertar todas as sensações.

sábado, setembro 30, 2006

O desespero


Cuspir palavras de amor
No rosto da pessoa que amamos.
Despejar um perfume de dor
Através dos gestos que atiramos.

Uma rainha querer ser.
Com mentiras sempre brincar.
Tentar te enlouquecer
Quando já não consigo respirar.

Estar contra ti para existir.
Embrenhar-me de todo o mal
Que um dia me fizeste sentir.
Transformar-me num jogo fatal.

Perante ti irei partir
Os espelhos onde se reflectia,
Sempre a oprimir,
O teu olhar que me perseguia.

Apagarei sem lamento
A tua alma da minha.
Desaparecerá o meu tormento
Quando chegar esse dia.

Que importam urnas de cinzas cheias?
Este pensamento que me aliena?
Cortarei com frieza minhas veias
Para matar o peso da minha pena.

sexta-feira, setembro 29, 2006

A multidão


Na multidão,
Por vezes parece maior a nossa solidão.

Cruzamo-nos sem nos ver,
Tocamo-nos sem sentir,
E se um de nós desaparecer,
Ninguém se preocupará em conferir.

Na multidão,
Por vezes parece maior a nossa exaltação.

Atropelamo-nos sem parar,
Ofendemo-nos sem perceber,
E se um de nós começar a gritar,
Todos, o mais forte, quererão ser.

Na multidão,
Deveria ser maior a nossa união.

Respeitarmo-nos sem julgar,
Conhecermo-nos sem esconder,
E se um de nós tropeçar,
Todos, em solidariedade, ajudá-lo a se erguer.

quinta-feira, setembro 28, 2006

A nómada


Vagueio pela minha vida
Como uma partícula de pó
No rasto de um cometa.
Vivo desiludida.
Permaneço ainda só
À espera de um profeta.

Deambulo pela minha vida
Como uma partícula de pó
Levada pelo vento.
Vivo perdida.
De mim sinto dó,
Em constante tormento.

Erro pela minha vida
Como uma partícula de pó
Nómada na minha mente.
Vivo indefinida.
Como num quadro de Miró,
Sou metáfora incongruente.

quarta-feira, setembro 27, 2006

O pôr do Sol


Uma bola vermelha de raios incandescentes
Flamejava no céu colorindo-o de tonalidades resplandescentes.
Rosas, violetas, encarnados,
Laranjas e dourados
Pintavam uma tela
De todas a mais bela.
Esses laivos lascivos levaram o horizonte
A ser do amor uma translúcida fonte.
Enfeitiçada por aquele firmamento em chamas,
Ouvi-te murmurar ardentemente que me amas
Mesmo sabendo que estavas longe daqui,
Mas toda aquela magia inflamada me lembrou de ti.

terça-feira, setembro 26, 2006

A-mar


À beira-mar, vou me abeirar de ti para te amar. Os nossos corpos vão rolar e ondular como as ondas que se enrolam na areia molhada. No vaivém da paixão, navegarei ao sabor de marés de prazer.
É assim que mergulho em ti - num mar imenso e profundo de amor.

segunda-feira, setembro 25, 2006

A introspecção


Quanto mais penso no que sinto,
Sinto que não penso os meus sentimentos.
Nem sei se de mim ou de mais alguém os consinto,
Tantos e tão diversos são os meus pensamentos.

E permaneço confusa, indecisa e dividida
Pois fico sem saber quem de mim tem a razão.
Entre o bem e o mal, vagueio perdida,
Seguindo, ora o concreto, ora o coração.

E, nesse corrupio de ideias, reconheço
Que ainda me surpreendo com o meu ser.
Descubro que ainda há muito que desconheço.
Novas facetas avistarei talvez até morrer!

domingo, setembro 24, 2006

O banco do jardim

Sentada no banco vermelho do jardim,
Contemplo a frescura verdejante da folhagem
Das seculares árvores frondosas,
Que desenham sombras no serafim
De olhar fixo à tumultuosa passagem
Das brincadeiras das crianças ruidosas.

No meio dos húmidos relvados,
Maciços perfumados de flores coloridas
Quebram, do verde, a uniforme monotonia.
Em círculos fugidios, os peixes dourados
Beijam, dos nenúfares, as folhas estendidas,
Partilhando as águas em perfeita harmonia.

Longe fica a agitação cinzenta da cidade,
Os carros que buzinam apressados,
As pessoas que passam sem dizer bom dia.
Aqui, os meus sentidos enchem-se de felicidade
E todos os meus problemas ficam dispersados.
No banco vermelho do jardim, respiro a alegria.

sábado, setembro 23, 2006

A solidão


Aos 25 anos, ela pensava que já tudo tinha conseguido alcançar e que o sucesso e a beleza jamais a iriam abandonar. Queria esquecer que a vida está sempre a mudar e que o jogo apenas acaba quando não há mais cartas para lançar.

Aos 45 anos, ela pensava que o melhor ainda estava para vir e que ainda estaria a tempo de muitas coisas conseguir. Acreditava que a juventude não chegava para tudo descobrir e que o seu sonho de amor ainda o iria atingir.

Aos 65 anos, mais um Natal passara e ninguém aparecera. A sua única companhia eram as suas fotografias colocadas no móvel. Sozinha, revia retratos de um amor que nunca acontecera. As suas memórias faziam parecer tudo ainda mais imóvel.

Aos 85 anos, ela recorda-se dos tempos de fantasiosa felicidade, em que tinha dinheiro e amigos que diziam que nunca a iriam abandonar. Mas o tempo incessante passou e depressa fugiu a lealdade. Hoje, ela grita em silêncio porque não tem ninguém para a escutar.

sexta-feira, setembro 22, 2006

À deriva


Nas ondas do mar
Estou a flutuar
À deriva no mar
Debaixo da luz solar
Por cima das águas do mar
Nas vagas a vaguear
Perdida no mar
Deixo de pensar
Levada pelo mar
O corpo a ondular
Deitado no mar
O sal a secar
Trazido pelo mar
Não sei onde vou chegar
Com a força do mar
Em qualquer lugar
O meu lar é o mar

quinta-feira, setembro 21, 2006

O Outono

Soturno, cinzento, macilento,
O céu chora chuvas de lamento
E eu quedo-me à janela
Que pinta o jardim em aguarela.
As folhas, os ramos, abandonam
Para se deitarem no chão,
Vendo as aves que partem e voam
Para reencontrar o Verão.
Eis a vida no seu ciclo fatal,
Despindo-se nos braços do adormecer outonal.

quarta-feira, setembro 20, 2006

A Primavera


Um raio de sol irrompeu
Por entre a núvem escurecida
E com sua ternura resplandeceu
No seio da natureza adormecida.

A flor, as suas pétalas, abriu
Para as encher de calor
E com suas tonalidades radiosas coloriu
O mundo, transfigurando-o em amor.

O perfume, despertado pela luz quente,
Libertou-se e invadiu o ar
Transformando, num sonho transcendente,
A imperturbada paisagem secular.

Foi então que toda a ave unida,
Inebriada com tanta beleza,
Entoou uma doce e alegre melodia
Para homenagear a natureza.

E assim a Primavera nasceu
De cores, perfumes, sons e emoções
E o ciclo da vida agradeceu
Fazendo palpitar todos os corações.

O luar


A lua
É uma bola
Que rola
No ar.
A roda
Da lua
É o luar
Circular.

domingo, setembro 17, 2006

O azul


Olho pela janela.
O azul imenso inunda o meu olhar
Numa matiz tão bela
Que só a natureza sabe pintar.
Reflexos prateados,
Na água estão a dançar
Com passos ondeados.
Céu e mar vão se beijar
Numa união tão perfeita
Que é difícil avaliar,
De visão satisfeita,
Se um dia irão acabar.
Olhando para a janela do meu pensamento,
No azul do teu olhar,
Desejo intensamente, com todo o sentimento,
Transformar-me no teu mar.

sexta-feira, setembro 15, 2006

O anjo



Um anjo no céu vi naquele dia
Com suas asas de luz a voar
Na minha núvem triste em que vivia
Lançou seu brilho p'ra me iluminar

Devagar, veio até mim com bondade
E deu-me alento p'ra voar também
Nesse céu de paz e felicidade
Onde se pode ir sempre mais além

Fui abençoada com sua ternura
No meu coração ficará sempre guardado
Desse lindo anjinho, o carinho e a brandura
Para toda a vida intimamente a meu lado.

quinta-feira, setembro 14, 2006

O agradecimento




Como fogo soltam-se as palavras
Depende de como são lavradas
Por vezes aquecem e nos iluminam
Outras destroem e nos desanimam

O que li nos comentários postados
Deixaram meus olhos cativados
Minha alma poeta se emocionou
E durante toda a noite sonhou

A todos que meu cantinho visitam
E que neste mundo lírico coabitam
Quero deixar meu enorme agradecimento
Pois dão-me força a cada momento.


Mas a operação de escrever implica a de ler como seu correlativo dialéctico, e estes dois actos conexos precisam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor e do leitor que fará surgir o objecto concreto e imaginário que é a obra do espírito. Só há arte para os outros e pelos outros.

SARTRE, Jean-Paul, Situações II

O sapo


O sapo sapiente mas sem paciência salta e salpica-se nos charcos de água sem mágoa. Como a pulga, pula em diagonal vertical no pantanal horizontal. Feliz, diz que não queria ser como a perdiz perdida e fujida da fúria da espingarda guardada pelo caçador causador de tanta dor. Sem medo e ledo, o sapo vivencia a vida como sinfonia de alegria.

quarta-feira, setembro 13, 2006

O prazer


Sonho saudades de te querer
Danças sensuais no meu interior
Gritos, delírios, tremores de prazer
Corpos fundidos no fogo do amor

Intensa subtil paixão ondulante
Voa no espaço que há em mim
Sinto-te anjo, homem, amante
Nos fluidos cálidos de frenesim

Na delícia extasiada deixo-me viajar
Para além dos limites da lua
No teu corpo de delírio vou vibrar
Em desejos de ser sempre tua

A insatisfação


Há um sonho em mim
Que me enche de dor
Um desespero sem fim
Que busca o ardor
Um desejo de amar
Aquele que não me ama
Uma vontade de parar
Este coração de lama
Infeliz aquele que me deseja
Porque não terá o meu amor
Peço a Deus que me proteja
E que deste frio faça calor
É tão mau este meu coração
Vazio só sabe fazer sofrer
Para mim tudo é uma ilusão
Insatisfeita hei-de sempre viver.

terça-feira, setembro 12, 2006

A entrega


O sol
Me acalentou
A lua
Me enfeitiçou
O vento
Me acariciou
A chuva
Me beijou
O mar
Me inebriou
A flor
Me alegrou
Mas só a ti
Me dou

O sol
Se iluminou
A lua
Se transformou
O vento
Se apressou
A chuva
Se intensificou
O mar
Se acalmou
A flor
Se perfumou
Mas só a ti
Me dou

O leite


No meu leito eu me deleito com um copo de leite, esse líquido delicado, alvíssimo, imaculado. Sem o pecado da gula, engulo o alimento que desliza liso e lento no meu ente crente dos seus benefícios para o edifício ósseo.
No ócio, a satisfação que essa acção provoca, evoco.

segunda-feira, setembro 11, 2006

O amor


Nos meus sonhos
És a estrela mais cintilante da minha constelação

No meu coração
És a batida mais forte da minha emoção

Na minha vida
És o sopro mais fogoso da minha respiração

sábado, setembro 09, 2006

A imaginação


Que tristeza
De morrer
Sem a certeza
De saber
Se fui uma partícula
De vida
Uma razão minúscula
Conseguida

Que solidão
Não conhecer
O que o coração
Pode ver
No mundo adulto
Isolada
Fujo do tumulto
Desolada

Que incerteza
É viver
Só na pobreza
De sobreviver
Na imaginação
Outra vez criança
Rio sem hesitação
Com confiança

Que alegria
De acreditar
Na fantasia
E brincar
O absurdo do mundo
Já esquecer
Num sono profundo
De novo adormecer

A ilusão


Hoje acordei em mais um dia de ilusão
Num frio estático pus meus pés no chão
Esqueci-me de tudo o que aconteceu ontem
Lembro-me apenas que tenho de fazer de conta
Que estou num lugar onde não estou
Um pequeno sabor a hipocrisia me tomou
Adormeço meus erros e embora estejas perto de mim
Continuas tão distante que não consigo afastar-me do fim
Vejo-te a guardar tudo dentro de ti
De olhos abertos vejo a dor que senti
Magoei-te e magoas-me com prazer
Caí no chão sem saber o que fazer
Mas tudo continuará sempre igual
Porque quando as coisas correm mal
Finjo que o passado não é real
A linha entre o amor e o ódio é apenas formal
Agora sou prisioneira das minhas memórias
Apenas um fantasma de sensações contraditórias.

sexta-feira, setembro 08, 2006

A poesia




Para mim escrever poesia
Juntar palavras em harmonia
É um enorme desafio
E por vezes um atrofio

Tento elaborar um texto engenhoso
Há dias que só sai algo piroso
Como Pessoa queria ser habilidosa
Ter esse dom da escrita preciosa

Para já limito-me a juntar rimas
Digo para mim "Tu não desanimas"
E um dia talvez escreva algo sublime
Com esforço, que a beleza culmine.

quinta-feira, setembro 07, 2006

A vida


Ainda somos jovens mas já nos sentimos velhos
Passamos o tempo a fazer planos para amanhã
Enquanto que sem esperar a vida rápida passa
E continuamos a nos sentir vazios e inseguros
Para quê tanto suor e preocupação com o futuro
Se nem sequer sabemos se estaremos cá amanhã

Quando surgem momentos difíceis dizemos
"Ninguém deve sofrer tanto como nós"
Dia após dia vemos quanto tudo é efémero
Mesmo o amor pode ser apenas passageiro
Para ver a luz, temos de aproveitar cada momento
As preces não ajudam a dissipar o ar atroz

Quantas vezes estivemos prestes a cair para o abismo?
Então vivamos cada dia como se fosse o último da nossa vida
Aproveitemos o hoje e não esperemos pelo próximo dia!

quarta-feira, setembro 06, 2006

O medo




Á noite, faz-te sentir amada
De dia, sentes-te abandonada
Sorrindo, transmite-te calor
E fala-te de amor
Mas tudo não passa de ilusão
E tu bem o sabes...

As suas palavras fazem-te sonhar
Ele é tudo o que poderias desejar
Mesmo quando dói, acabas por ficar
Promete-te sempre que vai mudar
Mas tudo não passa de ilusão
E tu bem o sabes...

Depois do amor, vira-te as costas
És apenas mais uma que aceitou as propostas
Como as outras que com ele vão para a cama
Amanhã jurará que é só a ti que ele ama
Mas tudo não passa de ilusão
E tu bem o sabes...

Quando as coisas estão a esmorecer
Com um "amo-te" faz-te tudo esquecer
Sabes que é isso que às outras vai dizer
Acreditas que sem ti ele não pode viver
Mas tudo não passa de ilusão
E tu bem o sabes...

Pensas que sem ele nada pode existir
E que as tuas lágrimas não o deixam ir
As lágrimas até podem secar
Mas o coração não se pode mascarar
Tudo não passa de ilusão
E tu bem o sabes...

E se pensares bem
Verás que o que te faz ficar
É apenas e somente
O medo...

terça-feira, setembro 05, 2006

Amo-te


A ternura
Que colocas no meu olhar

As carícias
Que me fazem ondular

As lágrimas
Que não fizeste rolar

Os dramas
Que soubeste evitar

Os silêncios
Que conseguiste ultrapassar

Os sentidos
Que ajudaste a despertar

A minha pele
Que só tu sabes acalmar

As palavras
Que me impelem a avançar

Tudo o que fazes é ouro
Que em mim está a brilhar

O que me dás é um tesouro
De amor que me faz exultar.

segunda-feira, setembro 04, 2006

A impaciência


Tantas pessoas querem
Tanto saber o sentido de amar
Que até de si próprias se esquecem
Largam tudo e começam a caminhar
Com pressa de chegar
Não querem esperar

Tantas pessoas continuam a procurar
A desejar, a perseguir mas por vezes perdem
O rumo e a paciência de apreciar
E descobrir o que os outros valem
Querem logo alcançar
Sem ter de conquistar

Tantos sonhos se desvanecem
Pois servem apenas para escapar
Aos medos e receios que nos perseguem
Valerá a pena exigir tão pouco da vida para amar?
Qualquer coisa aceitar
Para deixar de chorar?

Eu quero ir devagar
Aprender o que tenho de aprender
Vais ter de saber esperar
O amor irá acontecer
Quando tiver de acontecer
Juntos temos de o aguardar
Para depois melhor o saber guardar.